Por: Lucas Ruthênio
Uma pesquisa desenvolvida no âmbito do curso de Zootecnia da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) resultou no aprimoramento de um aplicativo gratuito voltado à estimativa de peso animal, com impacto direto na agricultura familiar e na modernização da pecuária de pequenos criadores. A ferramenta, conhecida como “Balança de Bolso”, permite que produtores acompanhem o desempenho de seus animais mesmo sem acesso a balanças convencionais, transformando conhecimento científico em solução prática para o campo.
A iniciativa teve origem em uma Iniciação Científica (PIBIC 2021–2022), intitulada “Correlação entre medidas alométricas e de massa em lactentes Curraleiro Pé-Duro”, coordenada pelo professor Rocha. O estudo analisou a relação entre medidas corporais e peso de bovinos, estabelecendo equações matemáticas capazes de estimar a massa corporal dos animais a partir de dados simples coletados em campo. Segundo o professor, “essa iniciativa nasce de uma iniciação científica, realizada no período de 2021 a 2022, onde estudamos a correlação entre medidas alométricas e de massa em bovinos lactentes da raça Curraleiro Pé-Duro”.
No decorrer do projeto, a pesquisa avançou para a estruturação de um Programa de Melhoramento Genético dos bovinos da raça Curraleiro Pé-Duro, desenvolvido em parceria com o professor José Lindenberg, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). No entanto, a experiência junto aos criadores evidenciou uma limitação prática para a aplicação do melhoramento genético na realidade da agricultura familiar. “Percebemos que seria inviável o melhoramento genético por parte dos criadores, uma vez que muitos não dispõem de instrumentos para pesar os animais”, relata Rocha, destacando a dificuldade enfrentada por pequenos produtores no acesso a equipamentos básicos.
Diante desse cenário, a equipe buscou uma alternativa para tornar as equações científicas acessíveis aos criadores. O avanço do projeto foi viabilizado por meio do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI), por meio do programa Centelha II, que possibilitou a contratação de profissionais para o desenvolvimento tecnológico da solução. “A FAPEPI nos contemplou com recurso via Centelha para contratar os programadores e transformar as nossas equações de regressão em uma linguagem acessível ao produtor”, explica o professor. Com isso, os modelos estatísticos desenvolvidos na universidade passaram a integrar um aplicativo gratuito, simples e intuitivo.
O upgrade do aplicativo trouxe avanços técnicos e científicos significativos, especialmente com a ampliação da base de dados e a construção de equações específicas por raça. Em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Sindi, a UESPI coletou dados de bovinos dessa raça nos estados do Piauí e Ceará, garantindo exclusividade no uso dessas informações. “Em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Sindi, em exclusividade, coletamos dados de bovinos desta raça no Piauí e no Ceará, estimamos equações específicas para a raça e agora elas estão disponíveis gratuitamente na forma de aplicativo”, afirma Rocha. Segundo ele, a ferramenta atende criadores de todo o Brasil que enfrentam limitações financeiras para adquirir balanças, mas que desejam manter uma criação moderna e eficiente.
A exclusividade dos dados da raça Sindi também fortalece o caráter inovador do projeto e amplia a projeção institucional da UESPI. Para o professor Rocha, essa parceria representa um reconhecimento da capacidade científica da universidade. “É uma forma honrosa de a UESPI ser inserida entre as universidades que criam soluções para problemas de amplitude nacional. A raça que cresce o número de criadores em todo o Brasil, especialmente no Nordeste, privilegiou a UESPI para desenvolver a solução entre tantas ótimas universidades brasileiras”, destaca.
Na prática, o aplicativo promove mudanças diretas na rotina dos pequenos criadores e fortalece a agricultura familiar, especialmente no contexto do semiárido nordestino. A ferramenta permite acompanhar o desenvolvimento dos animais ao longo do tempo, armazenar informações e apoiar a tomada de decisões produtivas. “Agora o criador, mesmo pequeno, com uma vaca, pode saber qual o peso de seu animal, salvar as pesagens e acompanhar o desempenho”, explica Rocha. Segundo ele, essa escrituração zootécnica viabiliza a adoção da pecuária moderna, fomentando desde indicadores econômicos até informações que subsidiam o melhoramento genético dos rebanhos.
Para o professor, o projeto sintetiza o papel social da universidade pública ao colocar a ciência a serviço da sociedade. “Nossa vocação natural é apoiar a sociedade, em nosso caso principalmente a comunidade de criadores piauienses. Conhecendo as dificuldades do nosso povo, cabe à universidade empregar, na medida do possível, os métodos científicos para contornar os problemas e ajudar no desenvolvimento da nossa gente”, afirma.


