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Dia da Consciência Negra: professores e alunos destacam como a Universidade atua para fortalecer a luta do povo negro

Por Priscila Fernandes

O dia 20 de novembro marca o dia da Consciência Negra no Brasil. Um momento para reforçar a importância da cultura africana no país e luta contra a discriminação racial.

A escolha da data é uma referência a morte de Zumbi dos Palmares, um dos maiores líderes quilombolas do país, que morreu defendendo seu povo.

Oficialmente o dia foi instituído através da Lei nº 10.639, em 2003. O documento inclui o tema “História e Cultura Afro-Brasileira” como componente curricular obrigatório no calendário escolar. Já em 2011, por meio da Lei nº 12.519, a data foi oficializada como “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra”.

Hoje é um dia de reflexão sobre a luta dos negros contra a discriminação, como também momento para fortalecer a relevância dos povos afro-brasileiros em diferentes contextos sociais.

Universidade Estadual do Piauí (UESPI) sempre esteve atuante na causa através do incentivo de pesquisas, atividades e produções na área da representatividade negra. Os pesquisadores trazem para o ambiente acadêmico discussões importantes e necessárias para o desenvolvimento sócio político e cultural da sociedade.

Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro (NEPA) é o grupo de pesquisa na área Afro mais antigo da UESPI. Os pesquisadores atuam em prol da defesa da pesquisa acadêmico-científica e/ou espaços afins realizada prioritariamente por pesquisadores/as negros/as, sobre temas de interesse direto das populações negras no Piauí. Criado em 2005, o núcleo já recebeu mais de 100 pesquisadores da causa negra, africana, indígena e quilombola.

Professor Élio fala sobre conquistas do NEPA

O coordenador do Núcleo e professor do curso de Letras/Português, Élio Ferreira, conta que em seus 16 anos de existência o grupo desenvolveu livros, artigos, pesquisas e atividades. “O NEPA, em todos os anos de existência, promoveu debates muito importantes na área de ensino, pesquisa e extensão. Temos produções do nosso núcleo alcançando Universidades internacionais, como Harvard, Universidade de Lisboa, Universidade de Londres, dentre outros, alunos e professores realizando palestras nacionais e internacionais. Ademais, também ampliamos para a realização de eventos como o famoso África Brasil que hoje é consagrado na área, além de outros que vamos fazendo ao longo do ano. Com isso, conseguimos fazer-se presentes em vários âmbitos de ensino e debate”.

Além do NEPA, também existe o Núcleo de Estudos e Pesquisas em História e Memória da Escravidão e do Pós-Abolição da UESPI (SANKOFA) e o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação em Ciências Sociais (NUPECSO).

O SANKOFA  promove debates no Youtube sobre o ensino de história, a legislação e as diversidades metodológicas, que visa possibilitar uma visão reflexiva e crítica das legislações. Já o NUPECSO, é núcleo composto de professores, estudantes e técnicos interessados nas seguinntes linhas de pesquisa: Educação, movimentos sociais e cultura; Educação, violência e polícia; Educação e Estado.

A UESPI também possui Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Sociedade e Cultura – PPGSC, Área Sociais e Humanidades, que busca a integração de diversas áreas (História, Pedagogia, Ciências Sociais e Literatura) compreendendo abordagens plurais que enfatizem a diversidade étnica e cultural dos saberes humanos, as relações de trabalho, práticas sociais, políticas, econômicas e educacionais. o Programa tem caráter interdisciplinar. para promover o diálogo entre docentes e pós-graduandos, na construção dos objetos temáticos e no trato conceitual, ao longo dos tempos históricos e das hierarquias sociais, temporal e espacialmente diferenciadas. O programa foi aprovado ano passado e já lançou seleção em 2021.

Evento em alusão ao Dia da Consciência Negra 

Durante essa semana, a UESPI realizou o África Brasil 2021, evento internacional que tem como principal objetivo reunir pesquisadores de todo o mundo promover uma socialização das investigações científicas de caráter interdisciplinar. Nesse ano, o tema foi Narrativas, Ancestralidades e Outros Saberes. A professora Assunção Silva, coordenadora do evento afirma que hoje, na condição em que nós nos encontramos, inseridos/as numa sociedade racista e exclusivista, machista, homofóbica e de indiferença, todo evento que venha promover reflexão e intercambiamentos de ideias para acionar a ação reflexiva e de luta de todos/as/es no sentido de alcançarmos novas mentalidades e modos de conviver e existir é indispensável.

Edição do África Brasil presencial em 2018

” O África Brasil é um espaço e tempo de recuperação de fôlego e oxigenação para nossas resistências. O evento está em sua 7ª edição e reconhecido pelos/as pesquisadores/as do Brasil e de alguns países africanos. Já tivemos participantes de vários países africanos nas edições anteriores e agora predominou os de Moçambique. Mas também devemos enfatizar a inserção de pesquisadores/as de países da América Latina, como Argentina e Uruguai”, afirma

Conferência: Sobre o direito ao grito: a literatura de homens negros brasileiros em recortes, realizada este ano

Conferência: Sobre o direito ao grito: a literatura de homens negros brasileiros em recortes, realizada este ano

Ela acrescenta que se a Universidade não exercer o papel de espaço de promoção das humanidades, ela não pode ser chamada de Universidade. “Promover humanidades se faz no aprendizado diário da sala de aula, nas pesquisas de PIBIC e Pós-graduação e na Extensão. O África Brasil tem essa responsabilidade promover humanidades e assim combater o racismo e todas as mazelas alimentadas pelo patriarcalismo e o capitalismo”, enfatiza.

Pesquisas elucidam a representatividade e a luta negra

As estudantes do curso de História do campus de Oeiras estão entre as várias pesquisadoras e pesquisadores que buscam, através da produção cinetífica, mostrar-se ativos na luta pelo reconhecimento de direitos e representatividade no ambiente acadêmico e na sociedade em geral.

Foto Reprodução TV Globo

A representação da figura da mulher negra através da personagem de Taís Araújo da novela da cor do pecado do ano de 2004 foi tema da pesquisa desenvolvida pela estudante Thalita Silva, do curso de História em Oeiras. Em seu trabalho ela mostrou como a mulher negra e primeira protagonista negra de uma novela da rede Globo foi retratada, de quais estereótipos foram ligadas a ela e de como essa relação de gênero, classe e raça andam junto lado a lado.

“Todos nós sabemos que a mulher no seu sentindo geral sofre com o machismo em diversas áreas, e esse preconceito aumenta gradativamente se você for negra, pois tem o preconceito de cor, de gênero e de raça.Algo que me chamou atenção também foi o titulo da novela, ‘Da Cor Do Pecado’, eu pensei ‘como assim?’ Esse título já vem querendo mostrar que a cor negra seria aquela ligada a algo pecaminoso, a algo que não seria o certo. Um dos resultados é que sim houve um aumento da representatividade da mulher negra nas telenovelas, mas esse aumento não fez com que os estereótipos em relação a ela mudasse e que sempre são as que estão mais sujeitas a interpretarem sempre estimulando esse tipo de pensamento opressor. Fico feliz em estar incentivando outros alunos a falarem sobre isso que e uma questão de grande relevância”, afirma.

A pesquisadora e estudante do curso de História, campus de Oeiras, Edivania Lima fez um estudo sobre Luta pela Terra: O Processo de Demarcação e Titulação do Território da Comunidade Quilombola Canto Fazenda Frade Oeiras- PI. A graduanda destaca que sua pesquisa é uma das formas que a UESPI desempenha um papel de transformação social. ” Eu como pesquisadora e estudante acredito que a universidade, bem como todas as instituições de ensino, tem um papel fundamental para trazer à tona essas questões que envolvem a causa negra. Sempre serão necessários estudos, pesquisas e atividades que elucidem essa causa. A consciência negra não deve ser reconhecida apenas no dia 20, mas sim todos os dias. Cabe a nós pesquisares, estudantes e cidadãos sempre relembrarmos isso”, ressalta.

Lei de ampliação de cotas na UESPI

Em Janeiro de 2021, o governo do Estado sancionou a Lei de ampliação de vagas de ações afirmativas dos processos seletivos de Ensino Superior, de 30% para 50% no ingresso da graduação, e 30% para a Pós-graduação scrito sensu (Mestrado e Doutorado).

A conquista é fruto do esforço e da dedicação do projeto apresentando pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro (NEPA) e o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Educação e Ciências Sociais (NUPECSO) na Assembleia do CONSUN/UESPI, com a participação de professores, coordenadores, diretores de departamento, conselheiros e de representantes da Defensoria Pública, além dos parlamentares da assembleia.

A Lei visa dar mais oportunidades de ingresso na educação pública superior aos cotistas (estudantes de escola pública, negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência), também permite a maior ascensão social de pessoas oriundas de classes sociais menos favorecidas e invisíveis socialmente.

Ação no dia 20 de novembro

Na manhã desse sábado (20), integrantes do NEPA, NUPECSO, SANKOFA, PPGSC, PPGL e CCHL realizaram o plantio de uma muda de Baobá, árvore de origem africana, que simboliza a luta contra o racismo, no campus Poeta Torquato Neto, em Teresina. A árvore tem uma grande importância histórica e a ação foi um ato simbólico que rememora a busca constante da igualdade racial.

A ação visa evidenciar a importância da cultura negra e africana 

O professor Élio Ferreira conta que a ação foi pensada por pesquisadores do núcleo e defensores da causa negra na UESPI. “O Baobás é uma planta que carrega uma história consigo. Ela chega a viver por cerca de mil anos. Então, nós decidimos promover essa ação e deixar a nossa marca aqui no campus de Teresina”, finaliza.

A Prof. Dra. Assunção Silva conta que a iniciativa também faz parte de uma proposta de professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Em setembro, recebemos de Eliane Veras (UFPE) e seu esposo José Augusto da Casa dos Baobás, em Recife, a oferta de mudas de BAOBÁ para plantar no Piauí. Eliane Veras, nascida e criada em Teresina, mas hoje morando em Recife, veio à sua cidade natal e iniciou o processo de germinação, deixando várias sementes em desenvolvimento”, relata.

O Baobá foi plantado na entrada principal da UESPI, campus de Teresina

Na placa onde a planta crescerá, os seguintes dizeres ficaram marcados: BAOBÁ, EMBOMDEIRO, MICONDÓ-gên, Andasonia Digiata. Árvore milenar, originária do continente africano. Símbolo de resistência, existência, resiliência e do elo entre Brasil e África. Plantado é cultivado como representação da resistência da pessoas negras da UESPI. 20 de novembro de 2021 NEPA/ NUPECSO/ SANKOFA/ PPGSC/PPGL e CCHL.  

Resistir e existir!

Professores participantes da ação no campus Poeta Torquato Neto

Professores participantes da ação no campus Poeta Torquato Neto